Ushuaia, a cidade argentina conhecida como o “fim do mundo”, enfrenta um paradoxo preocupante. O crescente turismo de luxo, impulsionado principalmente por cruzeiros antárticos que chegam a custar US$ 18 mil, tem gerado um impacto drástico na vida dos moradores locais, conforme reportado pela Folha de S.Paulo. A demanda aquece a economia, mas sobrecarrega a infraestrutura da cidade e eleva o custo de vida a níveis insustentáveis para grande parte da população.
O aumento exponencial no número de turistas é notável. Em apenas uma década, o fluxo saltou de 35 mil para 111,5 mil visitantes por temporada, e as autoridades portuárias preveem um crescimento adicional de 10% neste ano. A maioria dos viajantes busca acomodações temporárias em plataformas como o Airbnb, intensificando a pressão sobre o mercado imobiliário e dificultando o acesso à moradia para os residentes permanentes.
A infraestrutura da cidade, com cerca de 6.200 leitos distribuídos entre hospedagens diversas, não consegue acompanhar o ritmo acelerado da demanda turística. Essa disparidade afeta não apenas os turistas, mas também os trabalhadores locais, que enfrentam dificuldades para encontrar moradia acessível e serviços básicos.
A realidade de muitos moradores contrasta com o luxo desfrutado pelos turistas. Nolly Ramos León, mãe solo de quatro filhos, reside em um barraco sem luz ou saneamento básico, em uma área precária com vista para o porto. “Demoramos muito tempo para construir esta casa”, desabafa Nolly. “Às vezes nem tínhamos dinheiro para comer, porque eu estava investindo nessa casa.”
Enquanto isso, investimentos em infraestrutura de alto padrão, como um resort de luxo da rede Meliá Hotels, buscam atrair ainda mais turistas de alto poder aquisitivo. A expansão agrava a crise habitacional, com apartamentos simples custando em média 900 mil pesos, forçando famílias a comprometerem até 80% da renda com aluguel. “Chegará um momento em que só turistas estarão em Ushuaia”, lamenta Maria Elena Caire, locutora de uma rádio local.
A localização estratégica de Ushuaia como porta de entrada para a Antártida impulsiona o turismo, mas também expõe a fragilidade da cidade diante da exploração desenfreada. A busca por experiências únicas, comparáveis a visitar outro planeta, segundo a Freestyle Adventure Travel, não pode ignorar o impacto social e ambiental sobre a comunidade local.
Fonte: http://revistaoeste.com











