Experiência profissional e capacidade de adaptação podem se tornar diferenciais para mulheres acima dos 40 anos diante das transformações do mercado de trabalho.
Por Fabio Tiepolo e Tati Sadala
A inteligência artificial (IA) está transformando o mercado de trabalho e trazendo um novo desafio para as carreiras femininas: como garantir que mulheres com décadas de experiência profissional acompanhem essas mudanças e aproveitem as oportunidades criadas pela tecnologia?
Estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam maior exposição feminina à IA generativa em determinadas ocupações, especialmente em funções administrativas e de suporte. Isso não significa, necessariamente, a eliminação desses empregos, mas indica mudanças nas competências valorizadas pelo mercado.
Nesse cenário, surge uma questão: quem conseguirá adaptar sua carreira na mesma velocidade em que a tecnologia transforma o trabalho?
Na Economia da Adaptação, chamamos de Capital Adaptativo a capacidade de aprender, experimentar e transformar conhecimentos em novas formas de gerar valor. Para mulheres com 40, 50 anos ou mais, essa habilidade pode representar uma oportunidade de reinvenção profissional.
A experiência acumulada ao longo da carreira também ganha relevância. Se a IA torna determinadas tarefas mais rápidas e acessíveis, competências como pensamento crítico, julgamento, negociação, relacionamento e compreensão de contextos complexos podem se tornar ainda mais importantes.
Esse conjunto de conhecimentos e experiências constitui o que chamamos de Capital Contextual. Uma executiva com 25 anos de trajetória não precisa competir com profissionais mais jovens apenas pelo domínio de ferramentas digitais. Sua vantagem pode estar em combinar a tecnologia com o repertório que construiu.
A IA também reduz o custo de experimentar novos caminhos. Uma profissional pode utilizá-la para pesquisar mercados, identificar competências transferíveis, estruturar projetos ou testar ideias antes de realizar uma transição de carreira. O próximo capítulo profissional não precisa começar quando o atual termina.
Mas a adaptação não pode ser responsabilidade exclusivamente individual. Aprender exige tempo, acesso, formação e oportunidades para experimentar. Esses recursos não estão igualmente disponíveis, especialmente para mulheres que conciliam jornadas profissionais extensas e responsabilidades familiares.
Por isso, as empresas precisam incorporar uma nova dimensão às políticas de diversidade: a desigualdade de adaptação. Além de acompanhar indicadores de contratação, remuneração e liderança feminina, devem observar quem recebe treinamento em IA, participa de projetos tecnológicos e tem oportunidades de desenvolver novas competências.
Para as profissionais, o primeiro passo não exige dominar todas as ferramentas. Pode começar pela utilização da IA em tarefas cotidianas, pela identificação de atividades que estão mudando e pela experimentação de novas possibilidades de atuação.
A inteligência artificial não criou as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho, mas pode ampliá-las se o acesso à transformação tecnológica permanecer desigual. Ao mesmo tempo, oferece instrumentos para ampliar a autonomia e construir novos caminhos profissionais.
Para mulheres experientes, a oportunidade não está apenas em aprender a utilizar IA, mas em combinar a tecnologia com tudo o que já construíram. Afinal, o valor da experiência não desaparece diante de uma nova ferramenta. O que muda é a maneira de transformá-la em oportunidades.









