A militância de esquerda, outrora um movimento de transformação social, parece ter se metamorfoseado em uma performance de classe. Em vez de luta nas ruas e engajamento genuíno, observa-se um espetáculo cuidadosamente encenado, palatável aos salões da elite e iluminado pelas luzes da aceitação social.
Essa nova liturgia progressista, distante das agruras da realidade cotidiana, transforma convicções em meros adornos, declamados entre degustações de vinho natural. A ideologia, no sentido clássico, cede espaço a um fetiche comportamental, onde a identidade se torna um produto de consumo e a ética, um acessório da moda.
Em seu teatro de certezas, a divergência é vista não como um debate salutar, mas como uma falha moral imperdoável. A pureza ideológica se torna a régua implacável, medindo a validade de cada indivíduo. Como exemplifica o autor, “Tenho amigos gays que votam à direita — e continuam sendo os mesmos homens e mulheres sensíveis, inteligentes, conscientes de si. Só que, para certos militantes, isso é inconcebível.”
A esquerda, ao que parece, sequestrou as identidades, transformando indivíduos em meras representações de suas causas. O gay, a mulher negra, o trans, são alçados a totens de uma moral superior, desde que sigam o roteiro preestabelecido. Desviar-se do script é traição, a dissidência é heresia.
Contudo, a complexidade da vida real não se encaixa em slogans simplistas ou em discussões teóricas. Essa esquerda, que se leva a sério demais, perdeu o senso de autocrítica e se tornou uma caricatura de si mesma, soando como um velho disco ideológico tocado em uma vitrola de luxo. No fundo, a “luta” se resume a uma simulação reconfortante, um passatempo para ricos que desejam parecer revolucionários sem o risco de se misturarem verdadeiramente.
Fonte: http://pleno.news











