O prêmio, que celebra a gastronomia como ferramenta de transformação social, consagrou o projeto de preservação agrícola no México e concedeu menção especial aos brasileiros Edson Leite e Adélia Rodrigues, da Gastronomia Periférica
O mexicano Lucio Usobiaga é o vencedor do Basque Culinary World Prize 2026. O prêmio internacional reconhece iniciativas que utilizam a gastronomia como instrumento de transformação social. O anúncio da 11ª edição aconteceu em Curitiba, neste sábado (08), durante o evento Gastronomia, Identidade e Transformação. A premiação também destacou os brasileiros Edson Leite e Adélia Rodrigues, responsáveis pelo projeto Gastronomia Periférica, que receberam uma menção especial do júri.
Usobiaga foi escolhido por seu trabalho à frente da Arca Tierra, iniciativa dedicada à preservação das chinampas, sistema agrícola ancestral de Xochimilco, ao sul da Cidade do México. O projeto conecta pequenos agricultores, restaurantes e consumidores para promover a produção agroecológica, recuperar áreas de cultivo e gerar renda para as famílias que mantêm viva essa tradição.
Criada em 2020, a Arca Tierra trabalha atualmente com cerca de 50 famílias produtoras de Xochimilco e de outras regiões do México, abastecendo aproximadamente 60 restaurantes e 300 assinantes. A iniciativa cultiva seis hectares e também promove atividades educativas e experiências presenciais. Somente em 2025, cerca de 16 mil pessoas visitaram as chinampas por meio das ações organizadas pelo projeto.
Formado em Filosofia, Usobiaga iniciou sua atuação junto aos agricultores da região e, em 2011, cofundou a Yolcan, iniciativa que deu origem à Arca Tierra. Seu trabalho busca demonstrar que a preservação ambiental e cultural depende também da viabilidade econômica das comunidades responsáveis por esses territórios.
“Estou muito feliz e profundamente emocionado por receber este reconhecimento na 11ª edição do BCWP. Por meio deste prêmio, o Basque Culinary Center e o Governo Basco abriram novos caminhos e impulsionaram a gastronomia social. Na Arca Tierra, em Xochimilco, compartilhamos dessa mesma visão: acreditamos na construção de pontes entre pequenos agricultores e a comunidade gastronômica, entendendo que a gastronomia tem suas raízes, acima de tudo, na terra.
“Os agricultores cuidam da nossa água, do ar e do solo, ao mesmo tempo que produzem alimentos saborosos e nutritivos. São guardiões da terra e, de certa forma, responsáveis por preservar a riqueza espiritual do planeta.
“Recebo este prêmio com enorme gratidão e com a convicção de que ele abrirá novas possibilidades para continuarmos construindo juntos.”, declarou Usobiaga.
Criado em 2016 pelo Governo Basco e pelo Basque Culinary Center, o prêmio concede 100 mil euros ao vencedor, que deve destinar o valor a um projeto de sua escolha. Nesta edição, a premiação ampliou seu alcance para reconhecer profissionais de diferentes áreas que utilizam a gastronomia para gerar impactos sociais, econômicos e ambientais.
Amaia Barredo, ministra de Alimentação, Desenvolvimento Rural, Agricultura e Pesca do Governo Basco, afirmou: “Além de ser um setor estratégico, a gastronomia é, por si só, uma poderosa ferramenta de transformação social. Apoiar a criação e o desenvolvimento do Basque Culinary World Prize ao longo dos últimos onze anos reforça nosso compromisso em abrir novos caminhos, transformar vidas, contribuir com a sociedade e, em última instância, semear o futuro por meio de iniciativas de alcance global.
Brasileiros recebem menção especial por projeto de inclusão profissional
Entre os destaques da edição está a Gastronomia Periférica, iniciativa criada por Edson Leite e Adélia Rodrigues para ampliar o acesso de moradores de comunidades periféricas à formação e ao mercado gastronômico. O projeto já atendeu mais de 3 mil pessoas por meio de programas gratuitos de capacitação, com aulas teóricas, atividades práticas, estágios remunerados e encaminhamento a oportunidades de trabalho.
A iniciativa também levou sua atuação a comunidades às margens do Rio Amazonas, com uma escola de gastronomia e restaurante flutuante. Para Edson e Adélia, o reconhecimento internacional reforça a importância de dar visibilidade e escala a projetos de impacto social.
“Reconhecer internacionalmente o trabalho feito pela gastronomia periférica é gerar esperança de que atuar com propósito abre caminhos antes inimagináveis. Todo reconhecimento dá visibilidade à transformação, mas é o investimento financeiro que permite dar escala a ela. Não basta aplaudir quem transforma a sociedade; é preciso criar condições para que essa transformação continue acontecendo”, afirmam.
Jacques Pépin recebe homenagem por trajetória dedicada ao ensino da culinária
A edição de 2026 também marcou a criação do BCWP Cooking Legacy, distinção honorífica concedida ao chef francês Jacques Pépin, de 90 anos, por sua contribuição à democratização do conhecimento culinário ao longo de mais de sete décadas. Autor de mais de 30 livros e apresentador de centenas de programas de televisão, Pépin construiu uma carreira dedicada a ensinar técnicas de cozinha de maneira acessível ao público. Sua atuação também inclui projetos de formação profissional para pessoas em situação de vulnerabilidade. Por meio da Jacques Pépin Foundation, criada em 2016 com sua filha, o chef apoia programas de educação culinária voltados, entre outros públicos, a jovens, veteranos de guerra e pessoas que deixam o sistema prisional.
Júri internacional se reuniu no Paraná este ano
A escolha dos homenageados foi realizada por um júri internacional presidido pelo chef espanhol Joan Roca, do restaurante El Celler de Can Roca. O grupo reuniu-se em Foz do Iguaçu e contou com a participação de nomes como Michel Bras, Trine Hahnemann, Elena Reygadas, Josh Niland, Narda Lepes e a brasileira Manu Buffara. Integrante do júri e uma das anfitriãs do encontro no Paraná, Manu destacou a importância de reconhecer projetos que ultrapassam os limites da cozinha profissional. “Como brasileira, fico especialmente emocionada ao ver o reconhecimento de iniciativas do nosso país, sobretudo aquelas que nascem nas periferias e utilizam a gastronomia para criar oportunidades, promover dignidade e transformar realidades”, afirmou.
Para Joan Roca, o trabalho do vencedor evidencia a relação entre preservação ambiental, produção de alimentos e desenvolvimento das comunidades agrícolas. “Seu projeto demonstra o que pode ser alcançado quando os esforços são coletivos e podem ganhar escala, mostrando como o conhecimento ancestral pode oferecer respostas aos desafios contemporâneos”, destacou o presidente do júri.











